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Dias em que a gente não se aguenta


Por Gilson Salomão


Tem dias em que acordo com a sensação de que alguém dormiu no meu lugar — alguém parecido comigo, mas de humor curto, pensamentos barulhentos e uma irritação que range como porta velha. Levanto-me, olho no espelho e reconheço o rosto, mas não o jeito. É como se eu fosse visita dentro de mim mesmo, tropeçando nos móveis da casa interior que eu deveria conhecer de olhos fechados.

A verdade é essa: às vezes nem eu me suporto.

Não é drama, nem poesia barata; é só constatação humana. Temos dentro de nós um condomínio inteiro de versões: a otimista que faz planos mirabolantes às duas da manhã, a dramática que interpreta qualquer atraso como sinal cósmico, a preguiçosa que aperta “adiar despertador” como se fosse religião… e a versão rabugenta — essa mora no térreo, porta sempre batendo, reclama até do vento.

Em certos dias, adivinha qual delas abre o portão antes das outras?

O problema começa cedo. Vou fazer café e derrubo açúcar na pia. Nem é muito — uma piscadinha de formiga resolveria fácil — mas aquilo já parece metáfora de tudo que sai errado. “Pronto, começou”, digo, como se o universo tivesse uma central de atendimento só para reagendar meus infortúnios.

A caminho do trabalho, percebo que estou irritado com pessoas que nem conheço. O moço do ônibus respira alto demais, a senhora mexe no celular com um brilho que parece um sol particular, e a criança mastiga com entusiasmo digno de novela. E eu ali, querendo que o mundo colocasse o volume no mínimo.

Não é bonito admitir, mas às vezes a implicância nos escolhe sem pedir permissão.

Chego em casa mais tarde e me sinto cansado não do dia, mas de mim. De como dramatizei coisa pequena. De como a impaciência latiu. De como pensamentos bobos viraram tempestades internas. E tudo isso escondido sob aquela fachada ensaiada do “tudo bem”.

É curioso: quando não suportamos os outros, dizemos que precisamos de espaço. Mas quando não suportamos a nós mesmos, pra onde vamos? Afinal, não dá pra pedir licença do próprio corpo, nem fazer check-out temporário da alma.

É aí que percebo que o problema nunca foi acordar de mau humor. O problema é a cobrança silenciosa de ter que ser estável o tempo todo, ser coerente, ser paciente, ser adulto responsável — quando às vezes só queremos existir em paz, mesmo que meio tortos.

E nesse instante percebo algo quase libertador: talvez o fato de eu não me suportar em certos dias não signifique fracasso — talvez signifique que estou vivo.

Só quem sente muito se atrapalha tanto. Só quem pensa demais tropeça em si. Só quem se cobra demais se cansa do próprio eco. E só quem está tentando ser alguém melhor se incomoda com as versões ruins que teimam em aparecer.

A gente não se suporta sempre porque é complexo, cheio de camadas como cebola dramática. E, ironicamente, é justamente isso que nos torna humanos e não máquinas de humor previsível.

Termino a noite de volta ao espelho. A luz fraca, o rosto cansado, mas já me reconheço de novo. Não porque desapareceu a irritação — ela ainda está ali, cochilando em pé — mas porque entendi que também faz parte de mim.

E que tudo bem.

Afinal, conviver consigo mesmo é uma arte: alguns dias pincelam beleza, outros borram tudo. Mas, no fim, é sempre a mesma tela, o mesmo artista, o mesmo caos bonito tentando se equilibrar.

E talvez — só talvez — suportar-se seja menos sobre gostar de cada pedaço e mais sobre aprender a caminhar com todos eles, até os que fazem careta quando o açúcar cai na pia.

Porque amanhã, se eu tiver sorte, acordo sendo outra versão de mim — talvez menos rabugenta, talvez mais leve. Mas, se não tiver, paciência.

Em dias ruins, o segredo é simples: a gente se suporta do jeito que dá.